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Sem sustos, sem monstros e sem sentido, Alien Covenant é o pior filme da série

Roberto Sadovski
11/05/2017 01h51
Alien Covenant é uma continuação de Prometheus, o que já diz tudo que você precisa saber sobre o novo filme da série do monstro espacial. Trocando em miúdos: traz respostas para perguntas que nunca ninguém se interessou em saber; coleciona uma equipe de exploradores sem a menor preocupação em lhes conferir personalidade; e deixa o anfitrião da coisa toda, o alien em si, encolhido num cantinho enquanto outros personagens comem bolo e dançam no salão. É uma decepção – mas uma decepção com pedigree, já que traz a assinatura de Ridley Scott. Covenant é, portanto, um filme lindíssimo, com produção de primeira, mas que tropeça em suas pretensões gigantes e nunca, em nenhum momento, diz a que veio. Do jeito que está é um greatest hits, uma mistureba com fragmentos do Alien de 1979 e também de Aliens, o Resgate, que James Cameron fez em 1986, embalando uma trama sobre colonos e inteligência artificial e engenharia genética.
O primeiro ato do filme é Scott em grande forma. A Covenant é uma gigantesca espaçonave-arca, transportando uma tripulação pequena e mais de dois mil humanos em animação suspensa até chegar em seu destino. Mas o trajeto para este novo paraíso é interrompido por um evento cósmico que deixa a nave avariada e mata alguns passageiros congelados e um de seus tripulantes (James Franco, numa ponta piscou-perdeu). Durante os reparos, eles interceptam uma mensagem de um mundo pertinho, que parece ter condições para sustentar vida humana – e toca todo mundo esquecer a missão e se mandar para um planeta desconhecido. O mistério se aprofunda quando alguns membros da equipe destacada para explorar este novo mundo e buscar a fonte da transmissão são contaminados por uma espécie de esporo alienígena. Não demora e eles se tornam hospedeiros de uma forma de vida aterrorizante – não o alien bonitão e icônico que conhecemos, mas para uma nova espécie, o neomorfo, que nasce em uma explosão de sangue e trata de isolar o time em terra dos poucos tripulantes ainda em órbita.
A tripulação do Covenant posa para a posteridade
Nessa parte de Covenant, Scott é mestre. Ele manipula o medo alternando sustos rápidos com suspense que segue num crescendo. O que parece uma missão de exploração logo se torna uma luta pela sobrevivência. A equipe liderada por Billy Crudup e auxiliada por Katherine Waterston e Michael Fassbender – este um “sintético”, Walter, versão melhorada do David de Prometheus – descobre que o “paraíso” é ilusório. Os desastres, mortes e explosões escalam a situação rapidamente, e a sensação de isolamento é sufocante, dando uma pista de que Covenant vai trilhar pelo melhor caminho do Alien original e também de Aliens, com criaturas assassinas à solta e uma corrida contra o tempo, com Danny McBride, pilotando a espaçonave em órbita, tentando resgatar os sobreviventes. Seria um bom filme. Mas daí David (aquele de Prometheus, com Fassbender em papel duplo) aparece… e Alien Covenant desmonta.
É compreensível que Ridley Scott quisesse retornar à mitologia que ele mesmo criou em seu primeiro filme em “Hollywood”. Ele viu sua cria ser diluída ao longo dos anos em filmes cada vez mais problemáticos (ainda na série original, com Sigourney Weaver) para descambar em uma quase paródia com dois Alien vs. Predador. Prometheus, lançado em 2012, apontava um recomeço bacana, mesmo que nem Scott nem os engravatados do estúdio admitissem que era, de fato, um filme ligado a Alien. “Posso dizer que eles compartilham o mesmo DNA”, disse o diretor à época, esquivando-se da conexão entre os filmes. Bobagem. A ficção científica com Noomi Rapace, Charlize Theron e Michael Fassbender era um prequel claríssimo do clássico de 1979, mas a hesitação em assumir os pontos de ligação mais óbvios resultou num filme com problemas de personalidade, um “é, mas não é” que empurrava eventos e personagens frouxos que, no fim das contas, não faziam a menor diferença. Prometheus terminava com a cientista interpretada por Rapace e o andróide sociopata David (este em pedaços) partindo para o planeta natal dos “engenheiros”, raça que aparentemente criou a vida humana na Terra. Sono.
Ridley Scott dirige Katherine Waterston…. que não é nenhuma Ripley. Foi mal.
Vai entender o motivo de Scott escolher dar continuidade justamente a essa história – e de maneira tão equivocada. Quando David reaparece em Covenant, é um pouco como o Coronel Kurtz de Apocalypse Now: enlouquecido pela escala dos eventos que o cercam, isolado em sua própria insanidade. A velocidade com que o novo elenco confia em David impressiona tanto quanto sua ignorância (ou ingenuidade, a escolha é livre). Basicamente só falta a ele pendurar em sua fortaleza (existe uma relação tênue com o clímax de Prometheus, mas ela não faz sentido algum) um cartaz com a inscrição que enfeita as portas do inferno de Dante em A Divina Comédia: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”. A coisa é tão absurda que, em certo momento, o andróide pirado chama um dos protagonistas para descer uma escadaria às escuras com um “Vem aqui, quero te mostrar uma coisa”. Um doce para quem adivinhar o que acontece em seguida.
Nesse ponto, Alien Covenant se transforma numa colagem dos melhores momentos que a série mostrou nestes quase quarenta anos. Existe o perigo à espreita em um lugar labiríntico, existe o confronto na espaçonave com explosões, maquinário pesado e expulsão do organismo invasor para a atmosfera, existe o cientista maluco brincando de Deus, maravilhado com sua cria… e existe uma equipe destroçada aos poucos por uma máquina de matar implacável. O que não existe é uma ideia original sequer. Explicar a “origem” do alien é um exercício preguiçoso e de execução duvidosa… O mais bacana de filmes de terror é fazer do monstro um gatilho para revelar o que move os personagens em torno dele, seus medos e motivações, suas virtudes e fraquezas. No caso de Alien, o Oitavo Passageiro, a criatura trouxe à tona o instinto de sobrevivência de uma protagonista memorável, a tenente Ripley, que ganhou status icônico nas mãos de Sigourney Weaver. O mistério em torno de sua gênese amplifica o senso de perigo – não sabemos o que diabos ele é! Buscar uma explicação é, no mínimo, castrar esse elemento.
David (Michael Fassbender), o andróide do mal, toca uma pra gente
Seria até compreensível um diretor novato, ou um cineasta sem visão, seguir esse caminho e encarar a série como um mero produto. Mas é inadmissível que um veterano da estatura de Ridley Scott se contente em regurgitar seu próprio passado de maneira tão canhestra. Alien Covenant não passa de um genérico, de diversão ligeira, que não honra sua própria história. É difícil entender o plano do diretor, até porque o novo filme é só uma peça em uma engrenagem mais ampla, que vai insistir em jogar luz na escuridão de onde os aliens surgiram – ele já anunciou que o roteiro do próximo filme está pronto, e a produção começa em pouco mais de um ano. O resquício de fé que sobrou na “franquia” (palavra horrível) foi pulverizado, e o interesse na obra do responsável por obras primas como Thelma & Louise e Gladiador com certeza está em outros filmes que ele ainda tem na manga. Blade Runner 2049 tem seu dedo como produtor executivo, mas é um alívio que esteja nas mãos de Denis Villeneuve, diretor com sangue nos olhos, genuinamente empolgado com o material, que pode trazer algo genuinamente novo. No caso de Alien, assumir o papel de mentor de um talento emergente talvez fosse o melhor caminho para Ridley Scott. Mas, assim como David, o robô do mal preso em uma obsessão, ele não vai largar o osso.

SOBRE O AUTOR

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

SOBRE O BLOG

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

Alien: Covenant (2017): a grande traição de Ridley Scott

O sexto filme da franquia Alien é um show de erros conceituais, que ignoram completamente a mitologia e a ambientação da série.

Em 1979, um desconhecido diretor britânico chocou o mundo com um longa que misturava ficção científica e puro horror. “Alien, o Oitavo Passageiro” é a síntese da claustrofobia. Um filme corajoso, absurdamente bem construído e estruturado, que conta com uma aura e ambientação perfeita. Muitos anos depois, em 2012, portando uma respeitável e justa comenda de “mestre do cinema”, esse mesmo diretor, Ridley Scott, resolveu voltar ao universo espacial criado por ele, agora com “Prometheus”. Mais preocupado em tratar da criação da humanidade, do que com as criaturas fálicas e assombrosas do passado, Scott foi muito criticado por não abordar o terror e a climatização que tornam “Alien” a singularidade que é. Eis que em 2017 ele regressa mais uma vez em “Alien: Covenant” e promete publicamente, que o novo longa será tudo e mais um pouco que os fãs da franquia esperavam… pena que isso seja um embuste.
No longa, uma nave chamada Covenant, que transporta milhares de colonos para um novo planeta à ser povoado, recebe uma transmissão vinda de um sistema desconhecido e também aparentemente habitável. Uma vez neste local, eles são atacados por criaturas estranhas e encontram com o androide David (Michael Fassbender, de “Assassins Creed”), que foi um dos “sobreviventes” de Prometheus, e que agora vive neste planeta.
Todas as prévias, trailers e declarações do diretor apontavam para um filme denso, com uma personagem feminina forte, que “emularia” a personagem Ripley do longa de 79 e principalmente, que se distanciaria dos erros cometidos no filme anterior, porém, estranhamente, o que ocorre é exatamente o contrário. Scott constrói um suspense capenga, ancorado em todos os problemas e tropeços de “Prometheus”. Um exemplo é a incoerência das ações dos personagens, que beiram o absurdo. Se você achava que era estranho um geólogo explorador se perder, ou um biólogo tocar uma criatura alienígena que nunca viu, aqui você irá se assombrar quando descobrir que, aparentemente, todos os personagens voltaram a época pré-escolar. Afinal, qual o sentido de se explorar um planeta desconhecido sem proteção nenhuma? Ou que tal, depois de ter batalhado com dezenas de criaturas infernais, olhar bem de pertinho um ovo gigante que está se mexendo??
Os personagens são tão caricaturais e inexpressivos, que as atuações do longa mal podem ser avaliadas com justiça. A participação do ator James Franco (“A Entrevista”) é uma interrogação gigante e a atriz  Katherine Waterston (“Animais Fantásticos e Onde Habitam”) encolhe-se o longa todo e só reage, de maneira forçada e abrupta, no final. Outro personagem que carrega o fardo da bidimensionalidade é o do Capitão Oram (Billy Crudup, de “Wachtmen“), que também é uma espécie de “pastor”, e que comete a maioria das trapalhadas absurdas contidas no longa. Com o acréscimo de ser o chato que carrega a incômoda e inútil – na trama – “tocha da fé”, durante toda a sua participação. Se o resto só serve para ser comida de monstro, as exceções são os robôs “gêmeos” David e Walter, interpretados com competência por Fassbender e que são, basicamente, alter-egos um do outro e levam o enredo do filme à frente. A busca pela criação do passado continua, só que agora com David tomando as rédeas, enquanto Walter, que é uma versão mais moderna e menos passional de David, serve fielmente e cegamente os seus criadores.
Tecnicamente o longa também é instável. Se por um lado as locações em Sydney, na Austrália, e a direção de arte são impecáveis, o mesmo não pode ser dito dos efeitos especiais. Principalmente os envolvidos nas criaturas. Existem dois tipos de monstros na história e nenhum deles parece ter peso ou ser palpável de verdade. A escolha da nova caracterização do Xenomorfo clássico, utilizando um modelo hi-tech parecido com o de “Alien vs Predador” é um equívoco tão óbvio, que chega a dar saudade da roupa emborrachada utilizada no passado. A única coisa que remete ao longa original mesmo é a trilha sonora, que é praticamente a mesma do primeiro filme. Porém, em ambientes abertos, onde boa parte da ação acontece, ela também acaba não funcionando tão bem.
“Alien: Covenant” na verdade deveria se chamar “Prometheus 2”, mas obviamente o diretor não quis associar seu novo filme com outro que foi duramente criticado no passado, mesmo que claramente ele seja uma continuação direta daquela história. Além de induzir o expectador ao erro, a inacreditável multiplicação das evidentes falhas e defeitos que foram cometidos passado são imperdoáveis. Scott claramente não dá a mínima para xenomorfos, facehuggers ou na mitologia que se criou em torno deles. Neste longa, fica claro que a intenção dele, quando aceitou voltar a franquia que o fez famoso, sempre foi a de contar uma história totalmente diferente do que esperávamos. Uma que fala sobre fé, criação, criatura e as responsabilidades envolvidas nisso. Portanto, quando ele mistura o que quer e o que não quer, com o aparente intuito de viabilizar financeiramente a sua obra, o diretor tristemente trai o seu próprio argumento, sua carreira e, principalmente, nós, os incautos e esperançosos fãs do diretor e da franquia.
Rogério Montanare 
@rmontanare









ALIEN: COVENANT (2017)
Alien: Covenant - Ridley Scott
Ridley Scott retorna ao universo que criou com ALIEN: COVENANT, um novo capítulo em sua inovadora franquia ALIEN. A tripulação do navio-colônia Covenant, ligada a um remoto planeta no lado distante da galáxia, descobre o que eles acham que é um paraíso inexplorado, mas na verdade é um mundo escuro e perigoso. Quando descobrem uma ameaça além de sua imaginação, devem tentar uma fuga angustiante.
Roteiro:
Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Carmen Ejogo, Amy Seimetz, Jussie Smollett, Callie Hernandez, Alexander England, Tess Haubrich, Uli Latukefu, James Franco, Noomi Rapace, Guy Pearce, Goran D. Kleut, Lorelei King, Javier Botet, Benjamin Rigby, Nathaniel Dean
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